quarta-feira, 28 de abril de 2010

o que um dia fomos


Hoje tive saudades tuas.

Decidi escrever sobre ti. Sobre nós.

A paixão morre aos poucos. Sempre morreu.

(Será que em tempo algum a houve?)

E as memórias que partilhávamos

não mais preencheram que meras noites

vazias de tudo o resto.

Embalados em abraços,

(difusa realidade que fomos)

Quando éramos nós

Percorremos camas vazias

Na esperança vã de nos encontrarmos.

E de manhã o dia era outro

As luzes difusas, o álcool, o sexo.

São agora pedaços de culpa espalhados pela estrada.

Não ouço o que ele diz…

Pneus gastos percorrem o asfalto sem destino aparente

Até alcançarmos o fim, sonhamos com o regresso

domingo, 4 de abril de 2010

estamos em maio, gosto em ver-te finalmente


Aquele rosto que há tanto desejava ver, aquelas mãos que esperava sentir em si. Finalmente. Quando o viu pela primeira vez, saída do comboio, sentiu-se fraquejar. A longa viagem que ali a levara, os meses contados, cronometrados até ao momento, percebeu então o porquê de lhe parecerem tão demorados.

Ele procurava-a por entre a multidão irrequieta com os seus enormes olhos esperançosos de a encontrar. Ela olhava-o, parada, acabada de descer aqueles monumentais degraus que à semelhança de uma última provação penosamente a levaram ao exterior da carruagem.

O olhar dele cruzou então o dela. Estagnou. Tudo o que trazia consigo fugiu das suas mãos. As pernas enrijeceram impedindo-a de caminhar. E ele sem perceber as sensações que lhe percorriam violentamente o corpo, permaneceu imóvel.

Ali, como que se o tempo tivesse congelado sentiram-se. Há distância de metros tocaram-se. Sem dar um único passo beijaram-se. Como tantas vezes o haviam feito separados por quilómetros.

Relembraram as noites em que dormiram juntos, aninhados, em que o mundo parava só para se rir dos seus sorrisos patetas. Recordaram os seus medos.

Perceberam aí que aquele carinho não podia terminar ali. Caminhava finalmente em direcção à realidade.

domingo, 21 de março de 2010

lapsos da realidade decorrida


sê livre

não contes os minutos

não penses nas horas


és tão feliz que esqueceste a existência do tempo

és livre

quarta-feira, 17 de março de 2010

insónia


Tentava adormecer na esperança vã de descansar.

Estava exausto.

Todas as manhãs o mesmo ritual

Todas as tardes

Todos os dias

Todas as noites

A preocupação.

Os lençóis, por mais envolventes e convidativos

Assemelhavam-se sempre a teias demoníacas que profanavam o seu corpo.

Lutava até à exaustão.

Ainda nelas envolto,

Deixava de sentir

O corpo.

Divagava.

Acreditava que finalmente conseguiria dormir.

Apenas se avizinhavam horas de sofrimento vazio.

Deixava de sentir

A alma.

Era invadido por pensamentos tortuosos

Assombrado.

Até finalmente se deixar ir

Até finalmente deixar de existir

Até….

Acordar

adeus


Distância

Separação

Tenho sido por elas acompanhado nestes meses sem ti.

Não o sabia. Apenas agora me apercebi.

Vejo-te em todo o lado

Ver-me-ás a mim?

Acompanho-te

Tal como distância e separação o fazem comigo.

Olho para ti. Ou penso olhar.

Para aquilo que resta de ti.

De nós.

Dos tempos em que éramos 2.

Dos tempos em que éramos 1.

De todas as distâncias.

De todas as separações.

De todos os reencontros.

Aguardo

Aquilo que sempre quis.

Aquilo que sempre pensei ter.

Aquilo que jamais terei. Que nunca será meu.

Nosso

Estou certo. Nunca o fui

segunda-feira, 15 de março de 2010

ludismo sentimental (ii)


Havia passado mais de uma semana desde a sua primeira aula. Apesar de se ter comprometido consigo mesma a ir regularmente às aulas a verdade é que aquela primeira de quase quatro horas a havia deixado sem qualquer vontade de voltar sequer a olhar para o livro.

Ainda assim, acabou por tomar a decisão de ir mais uma vez. Era sexta-feira e rapidamente se arrependeu mal ouviu o despertador tocar lembrando-a da pasmaceira que a esperava. Era a primeira e última vez que acordava de propósito para tal.

Já passava das dez horas quando entrou na escola. Estranhou não ver ninguém na recepção mas isso não a demoveu de entrar na sala de aulas.

Boquiaberta lá se conduziu à cadeira mais próxima do quadro. Era o atraente jovem quem lá estava, diante dela, cumprimentando-a com um sorridente “Bom dia” e perguntando-lhe o nome.

Achou que ele não tinha particular jeito para o ensino, no entanto, considerou a aula bem mais interessante do que a primeira.

- Desculpa Sara, esta aula tem que ser um bocado diferente porque o Bruno está quase a ir a exame, mas para a semana começamos isto como deve de ser, ok?

“Sara”, o seu nome, essas quatro letras por ele proferidas fizeram-na estremecer. Nunca semelhante lhe havia acontecido. Apenas conseguiu acenar afirmativamente com a cabeça.

Apesar da promessa que havia feito umas horas antes, decidiu não voltar a faltar a uma aula da manhã. E assim foi, as manhãs, livres ocupava-as com essas aulas. Todos os dias tentava, sem sucesso, meter conversa no final da aula quando todos se haviam ido embora. Demorava, propositadamente, mais tempo a arrumar o seu material. Apesar da simpatia com que o jovem professor a tratava, era apenas mais uma aluna e ainda que mantivesse uma esperança em criar alguns laços com ele, esta tarefa parecia-lhe cada vez mais improvável.

Estava ansiosa que chegassem as férias da Páscoa para puder ir todas as manhãs para a escola. Contudo, mal estas chegaram, a vontade de acordar cedo era pouca e o cansaço juntamente com o aborrecimento que lhe causaram aquelas matérias acabavam por a manter na cama.

Só ao fim de quase uma semana de férias se dignou a lá voltar, desta vez sem qualquer vontade ou interesse em fazer sequer amizade com aquele homem inacessível, queria apenas sossego e de preferência pouca conversa. Não estava, de todo, com vontade de conviver.


(há de continuar)