domingo, 14 de março de 2010

.

- Olha que a minha mãe está quase a chegar.

- Não faz mal. Dá tempo.

- Mas o Jorge está cá em casa!

- Mas está entretido com os pokémons.

- E se ele se lembra de vir aqui?

- Achas? É impossível arrancá-lo do sofá…

- Mesmo assim… Não me parece boa ideia.

- Vá lá. Eu sei que também queres.

- Não insistas. Já te disse que não.

- Oh deixa-te disso… Tão cedo não temos oportunidade…

- Mas tem que ser rápido!

- É rápido, não te preocupes…

- Mesmo?

- Prometo. Agora chega cá…

- Ai não me toques aí…

- Porquê?

- Faz cócegas…

- Também me podes fazer cócegas…

- Tenho vergonha…

- Vá, eu ajudo-te.

- O que é que estás a fazer?!

- Nada…

- Nem penses que te vou tocar aí!

- Oh porquê? Depois admira-te que o teu irmão apareça, com o barulho que estás a fazer…

- (…)

- Não fiques amuada, estou a brincar contigo. Não fujas…

- (…)

- Não gostas disto?

- Até sabe bem…

- Posso?

- Tenho medo…

- Eu tenho cuidado…

- Ok…

- Ah…

- Está a doer…

- E assim?

- Está melhor, mas tenta ir devagarinho…

- (…)

- Aaaa…

- Shhhh…

- Hmmmmm…

- Hmmm…

- AH! Aaaaa….

- (…)

- Foi bom?

- Pensei que ia ser pior…

- Eu disse-te que não custava nada.

- E agora?

- E agora o quê?

- É só isto?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

a manhã seguinte


Não sabia que horas eram, apenas sabia que era noite cerrada e ainda que tivesse trazido relógio se esquecera por completo de que o tinha no pulso. Aquele ambiente, aquela casa que tão bem conhecia, estava estranha. Sentia-se no mesmo local, numa realidade paralela em que apesar de tudo ser igual a sempre, estava envolto numa névoa luminosa que exigia um enorme esforço para focar a realidade. Cruzara-se com inúmeras pessoas, muitas delas nunca as havia visto, outras, mesmo conhecendo, simplesmente não lhes via os rostos.

Sentia-se verdadeiramente bem. Que liberdade! Podia mexer-se como se ninguém a olhasse, dizer o que quer que fosse como se ninguém a ouvisse, não havia passado ou futuro, nem mesmo presente. Nada existia, apenas a sua alma. O tão conhecido egocentrismo, soube aí o que significava e não havia dicionário que o conseguisse explicar melhor do que o seu corpo naquele momento.

E de repente, um progressivo arrefecimento de alma que lhe gelou as mãos, o corpo.

Sentiu-se só.

Que era feito da anterior libertação?

Foi momentâneo.

Como que por antítese, segundos depois, um fervilhar. O calor humano. A liberdade, agora partilhada. Um desconhecido. A meiga respiração junto do seu pescoço. As mãos, os braços a envolverem-na. Que agradável sentimento de protecção. Os corpos encaixados como se aquela chave abrisse na perfeição a fechadura do seu corpo. O acelerar da respiração ritmada. O silêncio. Um gemido. Um grito.

Não sabia que horas eram. Apercebeu-se de que tinha o relógio no pulso mas não quis olhar para os ponteiros. Pela luz que se esforçava por penetrar aquelas velhas e pesadas cortinas depreendia que a noite já era finda. Estava arrepiada de frio. Estava exausta. Que sonho estranho havia tido!

Notou na estranha roupa que se encontrava no chão, era a sua. Fazendo um enorme esforço tentou alcança-la sem sair do seu ninho. Vestiu-se ainda entre lençóis. Foi então que tocou em algo. Virou o corpo. Que vulto era aquele? À semelhança de uma criança curiosa, procurou perceber quem era aquele ser deitado junto a ela.

Antes de conseguir tal proeza ouviu um rouco “bom dia” vindo desse estranho. Retribuiu timidamente e apercebeu-se então de que não só não sabia quem era aquele homem como não se encontrava em sua casa.

Que sonho estranho havia tido!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

foi por isto


Porque tu fazes mal a ti própria.

Porque fazes pior ainda aos que te rodeiam.

Porque tu és negativa.

Porque tu és infeliz.

Porque ninguém pode ser mais infeliz do que tu.

Porque nenhum outro ser pode estar bem se tu não estiveres.

Nem mesmo se tu própria estiveres.

Ninguém pode estar mais que tu.

Ninguém pode estar menos que tu.

Ninguém te pode tratar tão mal quanto tu tratas os outros.

Ninguém pode ser sincero contigo.

Ninguém pode mentir-te.

Ninguém pode partilhar contigo e ser ouvido.

Porque tu és o epicentro.

Porque tu és o ser mais miserável e o ser mais poderoso, o ser mais feliz e o mais maltratado.

Porque tu… és tu.

E por todas estas razões e todas as outras, existentes, inexistentes, imaginárias, inventadas…

Foi por isto que saí (e por tudo o resto que sempre ficou por dizer)


Aqui jaz a tua filha.

Que a sua alma descanse em paz.

Longe de ti, longe de nós.

Longe daquilo a que outrora chamou casa.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

ponto de viragem


Início do fim
Final
(re)Começo

Não o sei...

Apenas agora percebi que deixaste em mim um quarto,
um pequeno quarto que pensava estar já trancado,
de cuja porta pensava ter perdido a chave,
cuja fechadura pensava ter preenchido com cimento
Para não mais lá entrar.

Malditas emoções
Malditos sentimentos


Há apenas oito dias estava pronta
mais do que preparada
Interiorizara e aceitara a forte probabilidade de não nos voltarmos a cruzar,
nem mesmo apenas os nossos olhares.

Maldito destino

Quis ele que esse dia
(o suposto encerrar de uma etapa, o começar de uma outra)
(o início de inúmeras extravagantes e inesquecíveis novas aventuras)
se tornasse naquele que viria a ser o re-despoletar dos sentimentos
Quis ele que os nossos caminhos não se descruzassem (para já)

Eu soube-o,
soube-o logo


Achei-me sarada, mentalizada, diferente, fortalecida.
De facto estou
Contudo estes factos não invalidam a realidade

Os sentimentos adormecidos estiveram sempre despertos, atentos, prontos a entrar em ebulição
(haviam simplesmente sido reprimidos no mais recôndito canto da minha racionalização dos mesmos)

Hoje pensei em ti
pensei em ligar-te
queria ouvir o tão distante som da tua voz

Decidi não o fazer

Mas bastaram trinta minutos, meia hora, para o telemóvel tocar
Pensando eu tratar-se de um alarme errado olhei desinteressada desviando o olhar instantaneamente
Tão rapidamente o o desviei como voltei a direccioná-lo para o visor.
Senti-me cair de um precepício

Eras tu

Falámos, falámos
mais do que seria suposto face ao propósito da tua chamada.

Agora
aguardo anciosamente por ouvir de novo a tua voz, perder-me na imensidão dos teus olhos azuis e sentir o teu cheiro que tão bem reconheço mesmo quando separados por quilómetros

sinto a tua falta

sábado, 15 de agosto de 2009

devaneios da razão


Pensava que eram tempos findos

aqueles em que lamentava

a invariabilidade da realidade,

Quando num lampejo de maldade,

a utopia me acordou da verdade.

Sonhei com o impossível

(possível pois então)


Ternamente envolvida

nas teias da irreal doçura,

sem redenções me deixei por ela encaminhar

Perdi-me por infinitos momentos

Até que... bruscamente senti

firmemente em mim cravadas

as mais malévolas tenazes

A cruel razão à realidade me chamou.

e como se de pó se tratasse

fugiu o sonho apressado da minha índole

para não mais me procurar

domingo, 2 de agosto de 2009

2.8


"Gosta sempre de mim. (...) Como fui feliz aí contigo, como tenho sido sempre feliz contigo, como gostaria de voltar, de voltar depressa para poder ver-te, tocar-te, falar-te, meter a minha chave na fechadura do teu corpo, a língua na tua boca, apertar-te o peito com as mãos, morder-te o percoço, voar, lembro-me de pormenores absurdos, do sinal do peito do teu pé (...), do canal da tua nuca, e gosto absurdamente de todos: minha senhora, eu amo-a. Se eu não a conhecesse persegui-la-ia pelas ruas com propostas sórdidas e veementes. Recordo-me do primeiro dia em que a vi, do seu perfil de Boticelli, recordo-me do ano seguinte na praia, do seu cabelo preso atrás e da sua risca ao meio, do seu aspecto de retrato de Ingres, recordo-me do seu ar de midinette, e amo perdidamente todas as suas encarnações, sem poder escolher entre elas. (...) Amo os seus gestos, os seus sorrisos e as suas fúrias. Amo as suas zangas e a solenidade calada e digníssima dos seus amuos. Amo as suas recriminações e os seus beijos. (...)

De resto fazes-me falta em tudo, uma falta permanente e horrível, que se acentua dia a dia como um vazio no estômago, um oco no espaço, uma sincera vertigem no centro da cabeça amo-te.

Lembra-te de mim sempre e de que gosto tudo de ti. Espero furiosamente que o tempo passe, e amanheça depressa (...)."



António Lobo Antunes


("sou tua, sempre fui, já o era ainda antes de o saber")

e que amanheça depressa dia 17


domingo, 19 de julho de 2009

ausências


Deambulo pelos locais que costumávamos frequentar na esperança vã de me cruzar contigo. Procuro encontrar os sinais inexistentes que me dizem que voltarás.

E recordo...

Recordo constantemente e de forma insessante todos os momentos que passámos juntos.

Não consigo esquecer.

A tua sonora e contagiante risada está gravada na minha memória. E o teu cabelo... Os teus longos cabelos castanhos que quando beijados pela luz do sol se tornam loiros avermelhados... Como era para mim difícil manter os dedos afastados dessas sedosas chamas.

Dou por mim perdido, encontrando-me numa outra realidade. Naquela em que te verei uma vez mais entrar por esta perra porta e iluminar por completo o espaço que te envolve com a tua habitual boa disposição e alegria singulares.

Passo demoradas horas e longos dias a olhar essa mesma porta, acreditrando na tua chegada, desejando a tua presença apenas para te poder dizer o quão certa estavas quando num tom jocoso me dizias que não ia suportar as saudades. Apesar das minhas risadas, eu já sabia aquilo que o tempo apenas viria aconfirmar.

Regressei ao monocromatismo que coloria os meus dias antes de me mostrares a pluralidade de tons que a paleta tem para oferecer.

Tento recordar essas tonalidades mas a saudade esfumou-as, são agora uma difusa neblina.

Tal como a tua presença...