terça-feira, 13 de outubro de 2009

foi por isto


Porque tu fazes mal a ti própria.

Porque fazes pior ainda aos que te rodeiam.

Porque tu és negativa.

Porque tu és infeliz.

Porque ninguém pode ser mais infeliz do que tu.

Porque nenhum outro ser pode estar bem se tu não estiveres.

Nem mesmo se tu própria estiveres.

Ninguém pode estar mais que tu.

Ninguém pode estar menos que tu.

Ninguém te pode tratar tão mal quanto tu tratas os outros.

Ninguém pode ser sincero contigo.

Ninguém pode mentir-te.

Ninguém pode partilhar contigo e ser ouvido.

Porque tu és o epicentro.

Porque tu és o ser mais miserável e o ser mais poderoso, o ser mais feliz e o mais maltratado.

Porque tu… és tu.

E por todas estas razões e todas as outras, existentes, inexistentes, imaginárias, inventadas…

Foi por isto que saí (e por tudo o resto que sempre ficou por dizer)


Aqui jaz a tua filha.

Que a sua alma descanse em paz.

Longe de ti, longe de nós.

Longe daquilo a que outrora chamou casa.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

ponto de viragem


Início do fim
Final
(re)Começo

Não o sei...

Apenas agora percebi que deixaste em mim um quarto,
um pequeno quarto que pensava estar já trancado,
de cuja porta pensava ter perdido a chave,
cuja fechadura pensava ter preenchido com cimento
Para não mais lá entrar.

Malditas emoções
Malditos sentimentos


Há apenas oito dias estava pronta
mais do que preparada
Interiorizara e aceitara a forte probabilidade de não nos voltarmos a cruzar,
nem mesmo apenas os nossos olhares.

Maldito destino

Quis ele que esse dia
(o suposto encerrar de uma etapa, o começar de uma outra)
(o início de inúmeras extravagantes e inesquecíveis novas aventuras)
se tornasse naquele que viria a ser o re-despoletar dos sentimentos
Quis ele que os nossos caminhos não se descruzassem (para já)

Eu soube-o,
soube-o logo


Achei-me sarada, mentalizada, diferente, fortalecida.
De facto estou
Contudo estes factos não invalidam a realidade

Os sentimentos adormecidos estiveram sempre despertos, atentos, prontos a entrar em ebulição
(haviam simplesmente sido reprimidos no mais recôndito canto da minha racionalização dos mesmos)

Hoje pensei em ti
pensei em ligar-te
queria ouvir o tão distante som da tua voz

Decidi não o fazer

Mas bastaram trinta minutos, meia hora, para o telemóvel tocar
Pensando eu tratar-se de um alarme errado olhei desinteressada desviando o olhar instantaneamente
Tão rapidamente o o desviei como voltei a direccioná-lo para o visor.
Senti-me cair de um precepício

Eras tu

Falámos, falámos
mais do que seria suposto face ao propósito da tua chamada.

Agora
aguardo anciosamente por ouvir de novo a tua voz, perder-me na imensidão dos teus olhos azuis e sentir o teu cheiro que tão bem reconheço mesmo quando separados por quilómetros

sinto a tua falta

sábado, 15 de agosto de 2009

devaneios da razão


Pensava que eram tempos findos

aqueles em que lamentava

a invariabilidade da realidade,

Quando num lampejo de maldade,

a utopia me acordou da verdade.

Sonhei com o impossível

(possível pois então)


Ternamente envolvida

nas teias da irreal doçura,

sem redenções me deixei por ela encaminhar

Perdi-me por infinitos momentos

Até que... bruscamente senti

firmemente em mim cravadas

as mais malévolas tenazes

A cruel razão à realidade me chamou.

e como se de pó se tratasse

fugiu o sonho apressado da minha índole

para não mais me procurar

domingo, 2 de agosto de 2009

2.8


"Gosta sempre de mim. (...) Como fui feliz aí contigo, como tenho sido sempre feliz contigo, como gostaria de voltar, de voltar depressa para poder ver-te, tocar-te, falar-te, meter a minha chave na fechadura do teu corpo, a língua na tua boca, apertar-te o peito com as mãos, morder-te o percoço, voar, lembro-me de pormenores absurdos, do sinal do peito do teu pé (...), do canal da tua nuca, e gosto absurdamente de todos: minha senhora, eu amo-a. Se eu não a conhecesse persegui-la-ia pelas ruas com propostas sórdidas e veementes. Recordo-me do primeiro dia em que a vi, do seu perfil de Boticelli, recordo-me do ano seguinte na praia, do seu cabelo preso atrás e da sua risca ao meio, do seu aspecto de retrato de Ingres, recordo-me do seu ar de midinette, e amo perdidamente todas as suas encarnações, sem poder escolher entre elas. (...) Amo os seus gestos, os seus sorrisos e as suas fúrias. Amo as suas zangas e a solenidade calada e digníssima dos seus amuos. Amo as suas recriminações e os seus beijos. (...)

De resto fazes-me falta em tudo, uma falta permanente e horrível, que se acentua dia a dia como um vazio no estômago, um oco no espaço, uma sincera vertigem no centro da cabeça amo-te.

Lembra-te de mim sempre e de que gosto tudo de ti. Espero furiosamente que o tempo passe, e amanheça depressa (...)."



António Lobo Antunes


("sou tua, sempre fui, já o era ainda antes de o saber")

e que amanheça depressa dia 17


domingo, 19 de julho de 2009

ausências


Deambulo pelos locais que costumávamos frequentar na esperança vã de me cruzar contigo. Procuro encontrar os sinais inexistentes que me dizem que voltarás.

E recordo...

Recordo constantemente e de forma insessante todos os momentos que passámos juntos.

Não consigo esquecer.

A tua sonora e contagiante risada está gravada na minha memória. E o teu cabelo... Os teus longos cabelos castanhos que quando beijados pela luz do sol se tornam loiros avermelhados... Como era para mim difícil manter os dedos afastados dessas sedosas chamas.

Dou por mim perdido, encontrando-me numa outra realidade. Naquela em que te verei uma vez mais entrar por esta perra porta e iluminar por completo o espaço que te envolve com a tua habitual boa disposição e alegria singulares.

Passo demoradas horas e longos dias a olhar essa mesma porta, acreditrando na tua chegada, desejando a tua presença apenas para te poder dizer o quão certa estavas quando num tom jocoso me dizias que não ia suportar as saudades. Apesar das minhas risadas, eu já sabia aquilo que o tempo apenas viria aconfirmar.

Regressei ao monocromatismo que coloria os meus dias antes de me mostrares a pluralidade de tons que a paleta tem para oferecer.

Tento recordar essas tonalidades mas a saudade esfumou-as, são agora uma difusa neblina.

Tal como a tua presença...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Talvez Pessoa


Sou marcado pela incessante procura da decifração do enigma do ser. Sei que é um mistério indecifrável mas procuro desvendá-lo.
Confronto-me com a minha pluralidade.
Sou múltiplo. Sou muitos. Sou nenhum.
Sou ninguém.
Acarreto esta fragmentação à qual não fujo. Esta é o meu caminho para o encontro comigo mesmo. Caminho este sem retorno.
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico, e em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim.
A multiplicidade de estilhaços em que a minha alma se fragmentou jamais me devolverá a unidade perdida.
A minha identidade.
Resta-me apenas interrogar o mistério. Resta-me unicamente a angústia de saber as questões irrespondíveis e a solidão interior em que vivo. Esta solidão que aumenta descontrolada de cada vez que me olho ao espelho e este não me devolve o rasto.
A inquietação impele-me para uma constante vontade de chegar "além de", de alcançar "o outro lado".
Valorizo o sonho. Mesmo sabendo que este me afasta dos outros. Mesmo sabendo que este me afasta da própria vida.
Sonho hediondo que me impede de viver a vida como ela aparenta ser.
Pois bem sei que Não é com ilhas no fim do mundo que cura a alma o seu mal profundo.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

1a semana


Uma semana apenas.

Uma semana foi quanto durou o lapso da realidade decorrida.

Uma semana, sim.

Foi essa a fracção temporal que nos separou.

Sete dias apenas.

Sete dias de umas míseras 24 horas cada.


Resumir-se-á isto a um simples lampejo na vida de qualquer ser humano?


Pudera eu confessá-lo e dir-lhe-ia o quão errados estão aqueles que a resumem a tão pouco.


Foram estes 7 dias que me permitiram dissecar todo o momento consigo passado, todas as palavras por si proferidas, gestos, movimentos, olhares.

Fossem estes contabilizados e menor valor teriam que os 7 dias da semana.


Pudera eu sabê-lo meu uma milésima desse tempo e sentir-me-ia feliz.

Não eternamente feliz.

Feliz por um momento, talvez.

Um longo e demorado momento que se perpetuaria até ao infinito da minha existência.