segunda-feira, 10 de maio de 2010

o que quer que tenha sido


Aquele mais,

aquele menos,

Que podia não ter sido

se verdade fosse.

Mas foi.

Será que ainda o é?

Desconhecemos o que seja

ainda que o tentemos perceber.

É impossível.

Não o seria se possível fosse.

Esperemos. Esperamos.

Pode ser que entretanto ele apareça,

pode ser que sim.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

trapos

Usava-os como se de trapos se tratassem
Deles se libertava pela manhã
Tentava esquecer esses momentos
Procurava outros
Novos
Que depois de gastos atiraria na sarjeta
Como se de trapos se tratassem

Aqueles corpos
Aqueles corpos nus que acariciava
Aqueles corpos que beijava avidamente

Aqueles bocados de ser que desejava até possuir
Aqueles bocados de realidade
Aquele que pensava ser o último antes do próximo

Esse mesmo

Aquele que usava
Aquele corpo que desgastava

Aquele

(Não te lembras de onde o deixaste?)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

o que um dia fomos


Hoje tive saudades tuas.

Decidi escrever sobre ti. Sobre nós.

A paixão morre aos poucos. Sempre morreu.

(Será que em tempo algum a houve?)

E as memórias que partilhávamos

não mais preencheram que meras noites

vazias de tudo o resto.

Embalados em abraços,

(difusa realidade que fomos)

Quando éramos nós

Percorremos camas vazias

Na esperança vã de nos encontrarmos.

E de manhã o dia era outro

As luzes difusas, o álcool, o sexo.

São agora pedaços de culpa espalhados pela estrada.

Não ouço o que ele diz…

Pneus gastos percorrem o asfalto sem destino aparente

Até alcançarmos o fim, sonhamos com o regresso

domingo, 4 de abril de 2010

estamos em maio, gosto em ver-te finalmente


Aquele rosto que há tanto desejava ver, aquelas mãos que esperava sentir em si. Finalmente. Quando o viu pela primeira vez, saída do comboio, sentiu-se fraquejar. A longa viagem que ali a levara, os meses contados, cronometrados até ao momento, percebeu então o porquê de lhe parecerem tão demorados.

Ele procurava-a por entre a multidão irrequieta com os seus enormes olhos esperançosos de a encontrar. Ela olhava-o, parada, acabada de descer aqueles monumentais degraus que à semelhança de uma última provação penosamente a levaram ao exterior da carruagem.

O olhar dele cruzou então o dela. Estagnou. Tudo o que trazia consigo fugiu das suas mãos. As pernas enrijeceram impedindo-a de caminhar. E ele sem perceber as sensações que lhe percorriam violentamente o corpo, permaneceu imóvel.

Ali, como que se o tempo tivesse congelado sentiram-se. Há distância de metros tocaram-se. Sem dar um único passo beijaram-se. Como tantas vezes o haviam feito separados por quilómetros.

Relembraram as noites em que dormiram juntos, aninhados, em que o mundo parava só para se rir dos seus sorrisos patetas. Recordaram os seus medos.

Perceberam aí que aquele carinho não podia terminar ali. Caminhava finalmente em direcção à realidade.

domingo, 21 de março de 2010

lapsos da realidade decorrida


sê livre

não contes os minutos

não penses nas horas


és tão feliz que esqueceste a existência do tempo

és livre

quarta-feira, 17 de março de 2010

insónia


Tentava adormecer na esperança vã de descansar.

Estava exausto.

Todas as manhãs o mesmo ritual

Todas as tardes

Todos os dias

Todas as noites

A preocupação.

Os lençóis, por mais envolventes e convidativos

Assemelhavam-se sempre a teias demoníacas que profanavam o seu corpo.

Lutava até à exaustão.

Ainda nelas envolto,

Deixava de sentir

O corpo.

Divagava.

Acreditava que finalmente conseguiria dormir.

Apenas se avizinhavam horas de sofrimento vazio.

Deixava de sentir

A alma.

Era invadido por pensamentos tortuosos

Assombrado.

Até finalmente se deixar ir

Até finalmente deixar de existir

Até….

Acordar

adeus


Distância

Separação

Tenho sido por elas acompanhado nestes meses sem ti.

Não o sabia. Apenas agora me apercebi.

Vejo-te em todo o lado

Ver-me-ás a mim?

Acompanho-te

Tal como distância e separação o fazem comigo.

Olho para ti. Ou penso olhar.

Para aquilo que resta de ti.

De nós.

Dos tempos em que éramos 2.

Dos tempos em que éramos 1.

De todas as distâncias.

De todas as separações.

De todos os reencontros.

Aguardo

Aquilo que sempre quis.

Aquilo que sempre pensei ter.

Aquilo que jamais terei. Que nunca será meu.

Nosso

Estou certo. Nunca o fui